U2 por Rita Rocha
U2 Por Rita Rocha
“As coisas que mais me chamaram a atenção foram os livretos que fazem parte dos kits, e é a partir deles que este texto terá princípio. No livreto de Boy, é curioso observar as fotos e perceber que havia ali garotos inexperientes e - porque não? – medrosos. Mas que, a todo custo, tentaram esconder essa insegurança típica de adolescentes fazendo poses, caras e bocas. A ilustração feita por Bono no início do livreto parece querer passar para o papel as perturbações de um garoto que perdeu a mãe há pouco tempo e que não tem o que podemos chamar de “relacionamento” com o pai. O texto de Paul Morley, contando da primeira vez que os viu e que se espantou com um “Bono brilhante, a profunda concentração de Adam, as batidas de pele e sangue de Larry e os anseios explosivos de The Edge” e da empatia primária que teve assim que assistiu à apresentação da banda, que “era tão inexperiente e desconhecida, não tinha uma gravadora e era de tão longe (o show aconteceu em Londres), abrindo o show de uma banda obscura chamada Soul Boys, que só existiu para que eles fizessem parte da história”. Morley continua seu relato e não dispensa adjetivos àqueles garotos tão audaciosos, tão assustados e tão certos de seu sucesso. No fim, como veríamos nos outros dois livretos, uma pequena explicação de The Edge sobre as canções e suas histórias.
O livreto de October, com um texto de Neil McCormick, que poderia ser resumido dessa maneira: “O som de uma banda em crise, ainda com fogo, ‘October’ é o tesouro perdido do U2. Um rugido ensurdecedor de uma confusão espiritual e um rock de ficção científica, este é o álbum que quase acabou com eles antes mesmo deles terem começado”. Durante seu texto, McCormick conta a história da gênese do álbum – que chama de “álbum com canções não-finalizadas e letras desesperadamente inarticuladas, quase passionais para tratar de um tema tão espinhoso de uma forma quase nua”. Nas fotos, os mesmos meninos do álbum anterior, com olhos que demonstravam ao mesmo tempo – se é que isso é humanamente possível – medo e esperança.
Chegamos ao fim da primeira trilogia U2niana, com War, que parece ter vindo com a missão de salvar aqueles garotos do quase naufrágio que foi October. O estilo de Niall Stokes – autor do texto que é contido neste livreto – é um pouco diferente dos outros dois textos. Ele nos contextualiza historicamente, talvez como que uma explicação para o título do álbum: a invasão soviética do Afeganistão, a eleição de Ronald Reagan, a guerra das Ilhas Maldívias, a intervenção americana no Líbano, os ataques do IRA, entre outros. O mundo estava em colapso. E o álbum, “um tapa na cara”, como disse Bono à HotPress, à época do lançamento, trazia a angústia de toda uma juventude. O grito desesperado por soluções, por paz, por um novo mundo. Uma juventude que gritava, insistentemente, para que alguém “enxugasse as lágrimas”, renunciando à violência e que terminava seu clamor desesperado por paz com uma oração, com uma promessa. Promessa de “cantar uma nova canção”. Promessa de esperança, de renovação. A letra de “40”, última música do álbum, talvez fosse uma resposta à primeira, que perguntava “por quanto tempo cantaríamos aquela canção”, de guerra, de dor, de angústia. É curioso observar, neste álbum, que os b-sides são praticamente releituras das mesmas músicas do CD principal. Quatro versões de New Year’s Day, três versões de Tw Hearts Beat as One. Poderia, sim, ser mera coincidência. Mas, para mim, a “coincidência” se auto-explique por tudo que escrevi acima.
Os CDs são um caso à parte. Ter todos os b-sides em um único CD, num áudio limpo e “novo”, sem aqueles ruidinhos tão característicos de um LP, é um sentimento único.
O case, luxuoso, próprio pra colecionador, faz com que eu – que, confesso, não tenho todos os álbuns do U2 – queira comprar todos, de uma só vez, e depois comprar de novo quando todos os outros antigos forem remasterizados. “Agora sim, o início de uma coleção respeitável”, disse-me meu namorado – a quem eu “converti” ao U2anismo – ao ver os CDs. Sim, o início de uma coleção respeitável. Talvez até seja o início de uma nova safra de verdadeiros fãs, que conheceram o U2 em 2006, quando a banda veio ao Brasil. “Fãs” que agora terão a oportunidade de conhecer músicas que talvez não soubessem nem que existiam. Afinal, que “fã” (uso a palavra entre aspas para destacar a diferença entre os fãs “antigos” e os fãs “pós-Vertigo Tour no Brasil) conhece todo o álbum October? Claro, com a internet tudo fica mais fácil. Mas… nada substitui o prazer de ter estes exemplares tão bem feitos, tão delicados e dedicados aos fãs, que acompanham o “quarteto fantástico” há tanto tempo. É um investimento que vale muito a pena, para quem realmente é fã. E para aqueles que ainda não são tão fãs assim e foram ao estádio do Morumbi nos dias 20 e 21 de fevereiro de 2006 só pra ver “a banda do loirinho do clipe da sereia”, é uma ótima oportunidade de conhecer essa banda única, que, por onde quer que passe, arrasta multidões atrás de suas mensagens de paz, amor e esperança.”